Renato já sabia disso: “... é sangue mesmo, não é merthiolate... todos querem ver e comentar a novidade, tão emocionante um acidente de verdade, estão todos satisfeitos com o sucesso do desastre... vai passar na televisão...”.
Tenho verdadeiro pavor de baratas – coisa de mulher – e as vejo circulando no mesmo lugar onde estou sentada com a medicação na veia, tranquilas, senhoras do lugar, só faltou um jaleco branco em cada uma e um estetoscópio no pescoço que elas não têm. Há mais baratas do que pacientes e profissionais da saúde nesse lugar.
A ambulância anuncia estridentemente sua chegada, todos saem correndo da enfermaria... “ atropelamento!” ouço; e todos somem. Dos 4 pacientes no quarto que eu estive só restei eu sentada numa maca, com música nos ouvidos, balançando as pernas como uma criança no balanço do parque esperando que voltassem.
Quando voltaram – os pacientes, porque o único médico de plantão estava na emergência – começaram os comentários, baixei o som claro para poder ouví-los, mas não retirei os fones nem abri meus olhos para não ver as baratas passeando.
“ Nossa! Esse moço não vai aguentar não!... Não mesmo, você viu a cabeça dele? Parecia uma macarronada de tão vermelha que estava...”
Acho que não vou comer macarrão tão cedo – pensei.
“Será que ele não usava o capacete?... “será que já avisaram a família” “O motorista do caminhão tava bêbado... Falei com o policial que veio na ambulância e ele disse...”
Mudei o foco da minha atenção, abri o soro para aquelas gotas caírem mais rápido, sairia de lá mais doente se permanecesse ouvindo aquilo, mas não aumentei o som. Continuei ouvindo aquela conversa de comadres – provavelmente elas nem mesmo se conheciam, mas a desgraça aproxima as pessoas – Elas mataram o rapaz acidentado, disseram até que o caixão teria de ser lacrado porque ele estava “muito feio”.
Meia hora depois do “acidente – incidente”, meu soro terminou de correr na veia, o enfermeiro retirou o escalp e eu saí do quarto.
Na recepção me deparei com uma senhora chorando, parei alguns instantes e pude verificar que era a mãe do rapaz acidentado, me aproximei dela e perguntei o que estava acontecendo e ela me contou:
“Moça, meu filho sofreu um acidente de moto, ele estava com o amigo dele, não estava de capacete e machucou um pouco o rosto, quebrou uma perna, mas agora ele já está melhor, eu estou chorando porque a gente paga imposto e cumpre todos os deveres de cidadão, e quando chega ao hospital não tem nem máquina de RX nem médico e as pessoas tratam a gente como animais, não falam nada, não dão informação, só sei que meu filho quebrou a perna porque dava pra ver o osso... estão esperando a ambulância pra levar ele pra Santa Casa...”
Engraçado, o rapaz teve uma fratura exposta, e as comadres no quarto da enfermaria providenciaram até um caixão lacrado pra ele. As pessoas divertem-se com tragédias e a Santa Casa... De santa não tem nada... Serve a vida de brinde numa tigela de cereal, quando tem cereal...
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