13 de outubro de 2014

Tudo o que preciso dizer está na ponta dos meus dedos.



Costumo dizer que o fundo do poço é o melhor lugar pra se estar, que se o fundo chegou é porque não dá pra cair mais, que só resta lutar para subir à tona novamente. Por isso gosto das perdas que me tiram tudo, assim, dá pra sentar em mim, olhar ao redor, e ficar. Até redescobrir a força e as possibilidades de recomeçar. Mesmo sabendo que as piores perdas são aquelas forjadas por pura negligência:
Quando se negligencia o amor, perde-se quem se ama.
Quando se negligencia o perdão, perdem-se os amigos que o merecem.
Quando se negligencia a saudade, mantem-se a distância, e se fica sozinho, vazio.
No mundo real, onde nem tudo são flores, é inequívoco que, infelizmente, as pessoas costumam julgar pela aparência. É praticamente impossível encontrar alguém que nos julgue unicamente por nossa essência. É até compreensível, pois é muito mais fácil, porém, com este hábito, grandes erros de avaliação são cometidos, e muitos deles acarretam enormes decepções e até mesmo prejuízos de toda espécie.
Muitas vezes, os sinais são evidentes, mas, parece que enganar a si mesmo traz vantagens. Pode ser que em curto prazo, mas, em longo prazo as perdas serão inevitáveis. Parece que o TER passou a valer mais que o SER, que o contrato de casamento importa mais que o amor, o funeral mais que o morto, as roupas mais do que o corpo e a missa mais do que Deus.
É preciso aprender que o que foi perdido não tem volta, que na vida, as perdas são algo que se tem que aceitar e que aquela historinha de que o que vai volta, é uma mentira universal.
Aprender que o apego só causa a dor e a desgraça e que, se for escolher amar, não ame, pois dói menos.
A vida se aprende nas perdas. É perdendo a liberdade que se  descobre que não se encaixa, é perdendo alguém que se descobre que não vale a pena lutar por futilidades, é perdendo o apoio que se descobre que o resto do mundo não para só porque nosso mundo parou. Nós aprendemos a viver assim: na marra, no grito, no sufoco, no impulso.
              O tempo nos mostra que não há nada em se superar na perda, mas sim se superar a cada dia, no dia a dia que nos mata lentamente, que nos faz perder um pouco de cada dia na perda do dia a dia.
            Assim, há muitos dias da vida que se tenta mudar ou recuperar um tempo perdido que mal se sabia que faria tanta falta nos dias de hoje.
            Dias que hoje, nos lembram de que ontem seria melhor, se fizesse parte do agora.

21 de junho de 2014

Em busca



Por onde andam os sonhos que não tenho sonhado? Devem estar junto da paz que não tenho sentido... Ocupada demais em estar, esqueci-me de ser e, principalmente, de sentir.
Tenho vivido em função das quase realizações dos sonhos, o que torna a paz interior meio que impossível de se encontrar.
Muito pior do que a convicção do não e a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata, trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Basta pensar nas oportunidades que me escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas ideias que nunca saíram do papel por essa maldita mania de viver no outono. 
         Pergunto-me, às vezes, o que me leva a escolher uma vida morna; ou melhor, não me pergunto, contesto. A resposta está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses sejam bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, o sentir ou o nada; mas não são.
Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, como o dizem, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris teria tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que trago dentro de mim. 
         Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-me somente paciência... Mas há um porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.
De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar a alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance e não deixar que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar é o segredo do encontro da tão sonhada (ou não) Paz interior...

Talvez eu fuja de casa aos 80 anos como o Quintana, afinal, nunca é tarde para se realizar os sonhos.

10 de maio de 2014

MÃE



Tenho de começar esse texto falando sobre a minha mãe, o meu exemplo, a minha força... Não existe no mundo inteiro nada melhor do que carinho de mãe, só mãe entende a gente, mesmo quando não agimos da maneira mais correta, só mãe nos dá conselhos sábios, só mãe dá algo sem cobrar nada em troca, só mãe ama incondicionalmente.
Minha mãe sempre foi uma guerreira, todas as mães são, mas cada uma é diferente da outra. Ela sempre lutou muito, trabalhou bastante e criou a mim e a minha irmã sozinha. Minha mãe sempre encontrou tempo para ajudar com os trabalhos da escola, mesmo tendo dois empregos, sempre batalhou para me educar e ensinar o caminho certo, embora em alguns momentos eu não tenha dado ouvidos aos conselhos dela, sei que se tivesse ouvido mais, muitos dos meus erros não teriam sido erros, Mãe sabe das coisas... 
Minha mãe foi e é até hoje o meu refúgio e a minha referência (talvez ela não saiba disso), sempre penso no que ela faria, ou no que ela diria antes de tomar alguma decisão, mas isso agora que sou mãe. Agora eu entendo muitas coisas que ela dizia e eu não ouvia, agora eu faço muitas coisas que ela fazia, agora eu sou Mãe...
Ser mãe mudou muito a minha vida, principalmente porque fui mãe aos 17 anos, quando deveria me ocupar em ser apenas filha. Mas disso eu nunca me arrependi, aprendi muito sendo mãe, aprendi a amar, a ficar sem dormir, a cuidar, a acordar molhada de xixi no meio da noite, a trocar fraldas, a fazer tetê, a fazer papinha, a entender o idioma estranho dos bebês, aprendi a dar sem receber nada, aprendi a lutar sozinha, a fazer umas contas de menos esquisitas, cheias de "corta daqui fica 0 ali", aprendi a ter memória de elefante, a ler as bulas dos remédios, a trocar os nomes dos alimentos, a fazer doces e bolos pras festinhas da escola... 
Aprendi com a minha mãe como ser mãe.
Aprendi a ensinar para meus filhos que dignidade é melhor do que dinheiro, que ser é melhor do que ter, que se deve valorizar o que se tem e não ter o que os outros valorizam, que para ostentar é necessário conquistar, que na vida nada é fácil, mas que viver vale cada sacrifício.
Aprendi que ser mãe vai muito além de gerar um bebê e trazê-lo ao mundo,ser mãe é antes de tudo ser filha de uma mãe maravilhosa que passou valores e ensinou a lutar, que amou e respeitou cada defeito e qualidade, que nunca foi indiferente a nenhuma dor, que sempre procurou fazer cada vez o seu melhor.
É como disse Drummond:

"...Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho."

Obrigada mãe!

26 de abril de 2014

Uma história triste



Já não chove.
 E o cheiro da estiagem se faz presente no interior da alma que, antes estava nublada e cinza. O tempo e a distância foram capazes de amenizar a dor causada por um sentimento que não se pode definir como amor, pois amor não machuca, não dói, não faz chorar; ao contrário, alivia as dores , causa torpor e traz sorrisos.
Hoje a alma se lembra de como agiu em uma situação que, ela própria criou e tornou difícil. Ela pensava; o que fazer: chorar, fugir ou enfrentar?
Pois é; a alma, além de ficar e enfrentar os problemas, ainda conseguiu se beneficiar deles, aprendendo e crescendo emocionalmente. Sim, conseguiu dar a volta por cima. Mas ficou uma lição disso tudo. Frente às adversidades que a vida lhe trouxe, muitas vezes por escolha dela mesma, foi inevitável experimentar o gosto amargo da frustração em alguns momentos.
Mas conseguiu. Extrapolou os sonhos!
Vivenciou as mágoas. Conviveu com fracos, suportou os falsos e se manteve em pé, mesmo com pedradas a atingindo em cheio.
Varreu de si a revolta ignóbil, o desprezo inútil, a tristeza vã, a descrença falsa. Reabriu seu coração à vida.
Deixou reflorescer a ternura que murchava dentro dela. Olhou em volta e para o céu sem fim... E se conformou com o mundo e com a vida.
       A vida e o mundo que merecia e queria para si.
A mesma vida que, ensinou a ela como dar a tal volta por cima e ver que após a tempestade o sol brilha e que a dor não dura para sempre. E que ensinou que lágrimas lavam a alma fortalecendo a vontade de vencer, que um dos maiores dons que uma pessoa pode possuir ou compartilhar é ser capaz de passar pelos espinhos e encontrar a rosa dentro de outras pessoas, que o sofrimento é só uma ventania que arrasta as folhas secas, mas não destrói a beleza das flores, e que, tendo coragem e perseverança, se pode derrubar qualquer obstáculo, acreditou nisso, abriu a janela e percebeu que já não chovia mais.



28 de janeiro de 2014

Apenas uma bomba de nozes.

“Como eu poderia morrer sem provar uma bomba de nozes?”
Realmente são deliciosas, como a boca de pêssego com sabor de cereja e eucalipto, como os olhos doces amendoados e amargurados que me observavam, como o  Peter Pan  que não queria crescer  no corpo do homem que tinha o sonho de criar asas através de uma reação química.
Os sons que nos cercavam  eram passos apressados  para as latas em frente e atrás de nós, sempre a pressa... E a pergunta que não calava nos olhos era: “ Como eu poderia morrer sem provar uma bomba de nozes?”
As pessoas iam e vinham de lugares alheios aos nossos sentimentos, os meus estavam em você, e os seus estavam somente na bomba. A sua boca saboreando o doce causava delírios  quais os de Clarice em seu “ livro dos prazeres”.  “_ Como uma mulher inteligente como você pode dizer que não gosta de Clarice?”
Sou grata por esta questão, afinal foi ela que me fez apaixonar-me por Clarice e sua Macabéa e enxergar tamanha beleza em tanta tristeza. Também foi Clarice que te levou a confidenciar a mim um recado apócrifo de alguém que havia sido suprimido por você em mágoa por traição.
“Como não consegue escrever?  Se fosse outra pessoa, eu aceitaria, mas você escreve bem pra caralho! Existe paráfrase pra que porra!?”  
Esta também foi uma pergunta que não vou esquecer nunca. Do seu jeito “sutil como uma patada de elefante” você me fez acreditar que seria capaz.
“Como assim por que eu não falei com você? Tinha alguém entre suas pernas.”  Realmente tinha alguém entre minhas pernas, mas não como você imaginou.
Foram tantas perguntas que ficaram sem resposta, tantos desejos sem serem saciados. Desejei ser aquela bomba de nozes e me acabar em sua boca...  Mas a realidade da lata que corria em direção oposta nos separou naquela noite, como nas outras passadas e futuras, como na vida que me privou de ser apenas uma bomba de nozes.


16 de janeiro de 2014

AutoEngano



Não se iluda, por melhor que seja o material do qual é feita, a máscara sempre cai.
Ao pensar em asfixia, nos vêm à mente a falta de ar, dor lancinante no peito, desespero, visão turva, perda dos sentidos etc.
 Eu penso em mentira. Explico:
Imaginem o efeito de uma gota de veneno em um litro de água. Compromete toda a água, isso é inevitável, assim como ninguém sustenta uma mentira sem contar outra e mais outra e assim  por diante colocando sobre si mesmo um peso enorme, tendo de se policiar para não cometer nenhum deslize e colocar sua mentira toda à perder.
Uma mentira bem contada, quando descoberta nos causa os mesmos sintomas da asfixia. É como se quem nos mentiu colocasse severamente a mão em volta de nosso pescoço causando primeiro a dor pelo desapontamento, em seguida pelo aperto e depois a falta de ar e os demais sintomas sucessivamente.
É no mínimo infantil imaginar que se pode contar uma mentira e mantê-la por muito tempo, a menos que, como eu, a pessoa pra quem se mente seja ingênua demais, ou tenha fé demais nas pessoas que julga conhecer. Uma coisa é certa, nunca se conhece verdadeiramente as pessoas.
 O que acontece quando o mentiroso está prestes a ser descoberto é que; como se julga capaz de se manter mentindo vai inventando, uma após outra, mentirinhas menores e usa de subterfúgios para se afastar da “vítima”, acreditando cegamente que não vai ser descoberto. Corta laços que dizia serem eternos com a desculpa esfarrapada de protegê-la, inventa uma viagem repentina, ou seja, de qualquer forma se afasta para evitar o inevitável; mas, sinto muito, não se evita o inevitável.
Mas a pior de todas as mentiras é o autoengano e lidamos com ele a todo tempo, quando, por exemplo, adiantamos o relógio em cinco minutos para não perder a hora, ou aceitamos inconscientemente a mentira de alguém por comodidade, por ser mais fácil lidar com isso do que com a ausência.

Quando essas mãos imaginárias nos libertam e o ar finalmente volta, ou seja, quando a mentira vem à tona é que percebemos o quão idiotas fomos, é como se cada palavra dita, cada olhar trocado, cada momento, cada pensamento perdesse total e completamente o sentido de ter sido, como se aquela pessoa nos tivesse dado um choque de realidade e dito “ Ohh trouxa! Sempre menti e você sempre acreditou!” Dói um pouco sim, mas faz crescer e perceber que aquilo que nós pensávamos que sentíamos também fazia parte do pacote e era pura e simplesmente mentira.