28 de janeiro de 2014

Apenas uma bomba de nozes.

“Como eu poderia morrer sem provar uma bomba de nozes?”
Realmente são deliciosas, como a boca de pêssego com sabor de cereja e eucalipto, como os olhos doces amendoados e amargurados que me observavam, como o  Peter Pan  que não queria crescer  no corpo do homem que tinha o sonho de criar asas através de uma reação química.
Os sons que nos cercavam  eram passos apressados  para as latas em frente e atrás de nós, sempre a pressa... E a pergunta que não calava nos olhos era: “ Como eu poderia morrer sem provar uma bomba de nozes?”
As pessoas iam e vinham de lugares alheios aos nossos sentimentos, os meus estavam em você, e os seus estavam somente na bomba. A sua boca saboreando o doce causava delírios  quais os de Clarice em seu “ livro dos prazeres”.  “_ Como uma mulher inteligente como você pode dizer que não gosta de Clarice?”
Sou grata por esta questão, afinal foi ela que me fez apaixonar-me por Clarice e sua Macabéa e enxergar tamanha beleza em tanta tristeza. Também foi Clarice que te levou a confidenciar a mim um recado apócrifo de alguém que havia sido suprimido por você em mágoa por traição.
“Como não consegue escrever?  Se fosse outra pessoa, eu aceitaria, mas você escreve bem pra caralho! Existe paráfrase pra que porra!?”  
Esta também foi uma pergunta que não vou esquecer nunca. Do seu jeito “sutil como uma patada de elefante” você me fez acreditar que seria capaz.
“Como assim por que eu não falei com você? Tinha alguém entre suas pernas.”  Realmente tinha alguém entre minhas pernas, mas não como você imaginou.
Foram tantas perguntas que ficaram sem resposta, tantos desejos sem serem saciados. Desejei ser aquela bomba de nozes e me acabar em sua boca...  Mas a realidade da lata que corria em direção oposta nos separou naquela noite, como nas outras passadas e futuras, como na vida que me privou de ser apenas uma bomba de nozes.


16 de janeiro de 2014

AutoEngano



Não se iluda, por melhor que seja o material do qual é feita, a máscara sempre cai.
Ao pensar em asfixia, nos vêm à mente a falta de ar, dor lancinante no peito, desespero, visão turva, perda dos sentidos etc.
 Eu penso em mentira. Explico:
Imaginem o efeito de uma gota de veneno em um litro de água. Compromete toda a água, isso é inevitável, assim como ninguém sustenta uma mentira sem contar outra e mais outra e assim  por diante colocando sobre si mesmo um peso enorme, tendo de se policiar para não cometer nenhum deslize e colocar sua mentira toda à perder.
Uma mentira bem contada, quando descoberta nos causa os mesmos sintomas da asfixia. É como se quem nos mentiu colocasse severamente a mão em volta de nosso pescoço causando primeiro a dor pelo desapontamento, em seguida pelo aperto e depois a falta de ar e os demais sintomas sucessivamente.
É no mínimo infantil imaginar que se pode contar uma mentira e mantê-la por muito tempo, a menos que, como eu, a pessoa pra quem se mente seja ingênua demais, ou tenha fé demais nas pessoas que julga conhecer. Uma coisa é certa, nunca se conhece verdadeiramente as pessoas.
 O que acontece quando o mentiroso está prestes a ser descoberto é que; como se julga capaz de se manter mentindo vai inventando, uma após outra, mentirinhas menores e usa de subterfúgios para se afastar da “vítima”, acreditando cegamente que não vai ser descoberto. Corta laços que dizia serem eternos com a desculpa esfarrapada de protegê-la, inventa uma viagem repentina, ou seja, de qualquer forma se afasta para evitar o inevitável; mas, sinto muito, não se evita o inevitável.
Mas a pior de todas as mentiras é o autoengano e lidamos com ele a todo tempo, quando, por exemplo, adiantamos o relógio em cinco minutos para não perder a hora, ou aceitamos inconscientemente a mentira de alguém por comodidade, por ser mais fácil lidar com isso do que com a ausência.

Quando essas mãos imaginárias nos libertam e o ar finalmente volta, ou seja, quando a mentira vem à tona é que percebemos o quão idiotas fomos, é como se cada palavra dita, cada olhar trocado, cada momento, cada pensamento perdesse total e completamente o sentido de ter sido, como se aquela pessoa nos tivesse dado um choque de realidade e dito “ Ohh trouxa! Sempre menti e você sempre acreditou!” Dói um pouco sim, mas faz crescer e perceber que aquilo que nós pensávamos que sentíamos também fazia parte do pacote e era pura e simplesmente mentira.