9 de dezembro de 2015

Sonho que se sonha só...

Testemunhas oculares do momento, os livros se abriam em entrelinhas sublinhadas e em negrito. A única fonte era lasciva e se debruçava sobre as bocas que a sorviam em goles vermelhos, que desciam lenta e docemente, saciando as sedes que as secava.
E vermelhas eram as faces tateadas como que querendo segurar o instante entre os dedos, assim como as costas arranhadas pelas unhas também vermelhas.
Ao fundo a melodia sonora ditava o compasso do balanço daqueles corpos, que entregues um ao outro, se buscavam.
Uma alça teimosa escorregava pelo ombro alvo e a mão que queria tocar além do tecido fino a puxava mais para baixo, desnudando o róseo e entumecido botão em flor, enquanto outras mãos já haviam se livrado do acessório guerrilheiro e desfeito os botões que cobria o peito que arfava sob a camisa.
Dedos entrelaçavam o cabelo agora crescido e puxavam delicadamente a cabeça para o lado revelando o pescoço que pulsava, atraindo os instintos notívagos da mordida pequena e sugada,  gerando um gemido abafado por beijos intensos e prolongados com sabor de vinho e paixão, quentes e vermelhos.

O botão e o zíper são alcançados e abertos, deixando exposta a trilha que instigava a boca sedenta a sugar gota a gota o néctar daquela nascente dionisíaca, mas quando o transbordamento é iminente, a boca recua; voltando úmida pela trilha, subindo de volta à boca que espera entreaberta.
E num movimento suave e delicado um quadril se encaixa ao outro como que numa engrenagem perfeita e bem lubrificada. No encaixe, as mãos se apoiam nos ombros e os dedos novamente entrelaçam os cabelos. Uma sucção leve e em seguida o nariz se afunda no pescoço exposto inalando o perfume feminino que completa a pintura.
O sabor dos corpos se mistura ao do vinho, os sons do êxtase se misturam à música que toca e o ritmo dos dois se adequa ao leve girar da cadeira que bate de encontro à mesa, derrubando a taça.
Os olhos se abrem e se encontram no momento exato da explosão de luxúria dos dois. Os olhos verdes tornam-se escuros de desejo e atraem para a perdição.

Nem mesmo uma palavra é dita. Ouve-se apenas as respirações carregadas, uma música de fundo, corações descompassados, o ranger leve da cadeira e um caco da taça dançando no chão.

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