28 de janeiro de 2014

Apenas uma bomba de nozes.

“Como eu poderia morrer sem provar uma bomba de nozes?”
Realmente são deliciosas, como a boca de pêssego com sabor de cereja e eucalipto, como os olhos doces amendoados e amargurados que me observavam, como o  Peter Pan  que não queria crescer  no corpo do homem que tinha o sonho de criar asas através de uma reação química.
Os sons que nos cercavam  eram passos apressados  para as latas em frente e atrás de nós, sempre a pressa... E a pergunta que não calava nos olhos era: “ Como eu poderia morrer sem provar uma bomba de nozes?”
As pessoas iam e vinham de lugares alheios aos nossos sentimentos, os meus estavam em você, e os seus estavam somente na bomba. A sua boca saboreando o doce causava delírios  quais os de Clarice em seu “ livro dos prazeres”.  “_ Como uma mulher inteligente como você pode dizer que não gosta de Clarice?”
Sou grata por esta questão, afinal foi ela que me fez apaixonar-me por Clarice e sua Macabéa e enxergar tamanha beleza em tanta tristeza. Também foi Clarice que te levou a confidenciar a mim um recado apócrifo de alguém que havia sido suprimido por você em mágoa por traição.
“Como não consegue escrever?  Se fosse outra pessoa, eu aceitaria, mas você escreve bem pra caralho! Existe paráfrase pra que porra!?”  
Esta também foi uma pergunta que não vou esquecer nunca. Do seu jeito “sutil como uma patada de elefante” você me fez acreditar que seria capaz.
“Como assim por que eu não falei com você? Tinha alguém entre suas pernas.”  Realmente tinha alguém entre minhas pernas, mas não como você imaginou.
Foram tantas perguntas que ficaram sem resposta, tantos desejos sem serem saciados. Desejei ser aquela bomba de nozes e me acabar em sua boca...  Mas a realidade da lata que corria em direção oposta nos separou naquela noite, como nas outras passadas e futuras, como na vida que me privou de ser apenas uma bomba de nozes.


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